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O que é a Literatura Infantil, afinal? Trouxe para conversar teóricos, estudiosos e autores

Zilberman (2003) considera a Literatura Infantil como um campo extenso e desconhecido de trabalho e estudo.



Ela compara o investigador do gênero a Cristóvão Colombo; quando pensou ter descoberto o caminho das índias, mal se “tangenciou um continente inexplorado, cujo perfil ainda está por ser definido” (ZILBERMAN, 2003, p. 11).


No decorrer das minhas leituras e estudos, da minha vida, encontrei uma grande variedade de abordagens teóricas, muitas vezes antagônicas, acerca do gênero literário infantil.


Acredito que as razões para isso sejam tão numerosas quanto as abordagens existentes. Saliento duas: além de ser esse campo vasto, há o fato de ser a Literatura Infantil, antes de mais nada, literatura.


Como afirma Coelho (1991), sendo literatura, é linguagem específica e expressa uma experiência humana, não podendo ser definida de forma exata.


Percebo um só consenso entre todos os teóricos e estudiosos de Literatura Infantil: o de que a mesma não é passível de fácil definição.


Porém, após visitar alguns desses teóricos e estudiosos, não acredito caber definir, nem conceituar o que é Literatura Infantil, pois seria grande a minha pretensão diante da grandeza do assunto.


Mas posso delimitar o que considero como livro do gênero, para, inclusive, utilizar essa delimitação nas minhas empresas e nos meus próprios livros.


Para isso, apresento aqui não somente informações sobre o que viria a ser o texto literário para a criança, mas também o que não o é.


Com Meireles (2001), Coelho (1991), Azevedo (2005), Lajolo (2007), Ramos (2005), Oliveira (2005), Queirós (2005), Bandeira (2005), Bettelhein (2008), entre outros, conversaremos um pouco sobre este importante gênero literário.

Inicio nossa conversa com Cecília Meireles, que, já no ano de 1951, na obra intitulada Problemas da Literatura Infantil, teceu muitas considerações sobre o gênero.


Entre elas, destaco a que segue, quando a autora disserta sobre o que seria considerado como um texto literário infantil:


São as crianças, na verdade, que o delimitam, com a sua preferência. Costuma-se classificar como literatura infantil o que para elas se escreve. Seria mais acertado, talvez assim classificar como literatura infantil o que elas lêem com utilidade e prazer. Não haveria, pois uma literatura infantil a priori, mas a posteriori. (MEIRELES, 2001, p. 20).


Como se lê, para Cecília Meireles, o livro é considerado como texto literário para a criança se, e quando, escolhido positivamente por ela, atestando sua qualidade e classificação como tal.


Sabedora de que tal afirmação poderia gerar um questionamento acerca dos livros escritos diretamente para as crianças, Meireles (1984) afirma que esta literatura infantil a posteriori não torna desnecessária ou inconveniente a publicação de livros para a infância. E considera, já naquela época, a existência de livros criados para as crianças que conseguiram alcançar o seu objetivo.


A criança, como destinatário do texto literário infantil, é consenso entre os teóricos estudados, ainda que Cecília a caracterize posteriormente, como vimos. Tanto que, para Marisa Lajolo (2007), poderíamos definir o livro para a criança por ser aquele que lemos antes de nos tornarmos adultos.

Não podemos, porém, enganarmo-nos ao pensar que, tendo os livros de Literatura Infantil sido escritos (e acolhidos) para as crianças, sejam leitura proibida ou inútil para os jovens e adultos.


Para Lajolo (2007), os livros lidos antes de alcançarmos a idade madura marcam a nossa formação.


Ricardo Azevedo vai um pouco além e afirma que a Literatura Infantil, por sua linguagem popular ― a da ficção e da poesia ―, possibilita a identificação, independente da faixa etária, por grande parte das pessoas.


Além disso, a Literatura Infantil, apesar do adjetivo que a acompanha, é literatura, e, como tal, é considerada arte.


Segundo Coelho (1991), literatura é, das artes, a mais importante, pois sua matéria é a palavra, o pensamento, as idéias a imaginação, justamente o que define a especificidade do ser humano. Portanto, não há como falar de Literatura Infantil sem considerá-la como arte.

Encontro aqui um outro ponto de consenso entre os autores visitados: Literatura Infantil é arte, arte da palavra. E como tal, possui algumas características:


Utiliza-se sempre e sempre o recurso da ficção (...); tem motivação estética (...); não é, portanto, utilitária (...); recorre ao recurso poético (...); vincula-se à voz pessoal, à subjetividade, ao ponto de vista inesperado e particular sobre a vida e o mundo (...); pode e costuma ser ambígua (...); pode brincar com as palavras e até inventá-las (...); tem a ver, por exemplo, com conceitos como a aventura, o romance, o suspense, a tragédia (...), a comédia, etc. (AZEVEDO, 2008, p. 6)


Mas o que, então, diferencia a Literatura “para adultos” do que consideramos Literatura Infantil? Seria a linguagem utilizada? Para isso, recorremos, novamente, ao ilustre autor e ilustrador Ricardo Azevedo (2005), que considera a linguagem dos textos literários para crianças como uma linguagem acessível e pública, que pode ser compreendida “por crianças e adultos, pobres e ricos, cultos e analfabetos, ou seja, uma linguagem popular.” (AZEVEDO, 2005a, p. 41).


Posso, então, buscar essa diferenciação da literatura voltada para as crianças, e a supostamente tida como de adultos, nos temas abordados pela Literatura Infantil.


Porém, acredito serem universais os temas por ela tratados: amor, ciúme, paixão, alegria, amizade, os sonhos, autoconhecimento, perdas, injustiças, conflitos, etc.


Questiono, então: o que diferencia a Literatura Infantil da literatura tida como adulta se não a criança?


Encontrei Ieda de Oliveira e o seu texto Contrato de comunicação, projeto de comunicação e qualidade em literatura infantil e juvenil. Nele, a autora ilustra de forma clara o contrato de comunicação estabelecido entre o autor e o leitor de uma obra literária.


É emprestando das suas próprias palavras que explico o que vem a ser este contrato de comunicação:


Para entendermos a noção de contrato de comunicação, convém lembrar que essa ideia foi tomada de empréstimo da terminologia jurídica. Um contrato, no sentido jurídico do termo (...) é, como se sabe, um conjunto de cláusulas que definem direitos e deveres das partes contratantes. (OLIVEIRA, 2005, p. 48).

Esses contratos de comunicação, explica a autora, só fazem sentido quando relativos a um gênero textual. Eles são consensuais e estabelecem-se entre o autor e o leitor.


Por exemplo, quando determinado escritor escreve um texto de ficção, é tácito, por parte do leitor, que seja lido numa situação de "faz-de-conta".


Ou seja, por meio do contrato de comunicação que se estabelece de forma consensual entre quem escreve e quem lê, podemos alcançar a separação entre Literatura para adulto e Literatura para criança:


O (contrato de comunicação) da literatura infantil e o da chamada literatura adulta (apesar do denominador comum existente entre elas e da existência de cláusulas comuns entre os respectivos contratos), não se confundem, porque as duas modalidades se dirigem a públicos-alvo diferentes. (OLIVEIRA, 2005, p. 55).


Ainda segundo Oliveira (2005), a fronteira entre a literatura infantil e a dita adulta é o contrato de comunicação, e por ser a criança o leitor típico da primeira, ela tende a uma linguagem “com limitações de léxico, de sintaxe e de visão de mundo” (OLIVEIRA apud OLIVEIRA, 2005, p. 58). Como vimos anteriormente, Ricardo Azevedo considera essa linguagem como popular.

Para Anna Claudia Ramos (2005), a Literatura Infantil tem uma especificidade, que é a de ter a criança como seu leitor, mas “como é literatura, dentro de todos os parâmetros da literatura, pode ser lida por qualquer idade. A diferença é que ela pode começar a ser lida na infância.” (RAMOS, 2005, p. 148).


Isso nos faz retornar à Cecília Meireles, quando coloca a escolha da criança pelo livro como classificatória para um texto ser ou não considerado como Literatura Infantil.


Contudo, quanto a essa caracterização pela escolha da criança, cabe-nos considerar que, devido ao crescimento do mercado editorial em relação ao texto literário para crianças, aumentaram também os seus atrativos, tanto na linguagem, quanto nos títulos e na imagem. Sendo assim, a escolha dos pequenos, prioritariamente, recai sobre os livros escritos especificamente para eles.


Você já sabia que havia tantos estudos, reflexões e indagações sobre a Literatura Infantil? Me conta aqui nos comentários, quero muito saber!


Aqui neste post eu falei um pouco sobre como eu, de forma particular e, claro, impactada por todos esses autores, colegas e estudiosos.


Importante: Para conferir toda a referência bibliográfica dos meus textos técnicos, acesse aqui.


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1 Comment


Guest
May 04, 2022

Conteúdo esclarecedor. ❣️

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Olá, que bom ver você por aqui!

Se você chegou aqui pela primeira vez, conheça um pouco sobre mim aqui. Eu quero conhecer você também, pode usar os comentário para isso!

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